Um teste para a paciência. É assim que qualquer pessoa normal encara o desafio de caminhar pelas abarrotadas calçadas da Avenida Copacabana. E embora eu não seja o exemplo mais bem acabado de sanidade mental, comungo desse ponto de vista. Aquilo é uma selva a ser desbravada. Justamente por isso, é muito sentida a ausência daquele traquejado guia local – figurinha fácil nos filmes de Tarzan do Johnny Weissmuller - que abre caminho a golpes de facão: “A aldeia fica nessa direção, Bwana!”. O enxame de camelôs, munidos com traquitanas eletrônicas recém-chegadas da China (ingratidão com o querido Paraguai), exige de mim um jogo de pernas superior ao do onipresente Robinho (seguuura que eu quero ver!). Mas sempre há o risco de sair catando cavaco após colidir com aquele estande de CDs falsificados que bloqueia o passeio – o pior é que eu nem gosto dos Tribalistas. Cortesia, claro, desse simpático mascate pós-moderno, o camelô. Bem feito também, quem mandou não andar no meio dos carros? E é melhor eu nem qualificar aquelas criaturas que param para tagarelar no meio da calçada, ocupando-a como se estivessem na sala de estar de seus sacrossantos lares.
Dentre a fauna que movimenta esse trecho da conspurcada Princesinha do Mar, destaque para os inúmeros pedintes, cuja específica função social é me deixar com sentimento de culpa por ter gasto 15 reais num CD usado. Mas notei que falta à Av. Copacabana uma daquelas figuras folclóricas que marcam época (saudades do Éter). Que tal pedir emprestado o maluco da Barata Ribeiro? Seu terno ensebado e os altos papos que leva com o rádio pifado causariam sensação. E como eu poderia me esquecer daquele povo que distribui panfletos nas esquinas? Tem gente que os ignora solenemente, mas eu ainda não cheguei a esse estágio de sofisticação. Minha tática é evitar o contato visual a todo custo. Quando ela fracassa, só me resta aceitar a derrota e, com resignação, apanhar o bendito panfleto. Panfletos que, aliás, são sempre os mesmos. A começar pelo tradicional “Compro ouro e jóias”. Infelizmente eu não possuo nenhum dos dois, mas ando pensando em livrar-me de uns CDs que só pegam poeira na estante. Tem negócio? Outro panfleto campeão de audiência é o da Mãe Zulmira. Entre outras coisas, diz ela que “trás (sic) o seu amor de volta em poucos dias”. Pode ser um amor platônico? Seria a chance de buscar um final diferente... Bah! A quem estou querendo enganar? Eu acabaria afundando nos mesmos receios. Olha, vamos fazer o seguinte: que tal trazer de volta o meu amor próprio? O problema é que ele sumiu faz tempo, acho que nem bola de cristal dá jeito. Recentemente fui apresentado a um novo e surpreendente anunciante. Enquanto eu meditava sobre a morte da bezerra, um fulano, surgido do nada, introduziu (epa!) um panfleto em minha mão e comentou algo sobre uma lourinha. Ao lê-lo, fui informado de que gatas incríveis estavam a postos para me proporcionar momentos de imenso prazer. Bastava telefonar para a Alessandra no número em destaque. Claro que eu já ouvira falar nessa nova e revolucionária estratégia de divulgação, mas mesmo assim... Em plena luz do dia? A que ponto chegou o nosso despudor. Entretanto, eu deveria saber que esta é a terra onde tudo é permitido. Foi-se o tempo em que esse tipo de serviço era oferecido somente nas páginas de classificados sob o eufemismo de “massagem”.
Mas se, durante suas andanças, o que você mais quer é abstrair-se do ambiente que lhe cerca, sugiro um jogo de minha lavra. É bastante simples. Basta ficar atento à pessoa que caminha a sua frente. Quando ela apanhar um panfleto, aposte mentalmente se ela irá ou não atirá-lo ao chão. Eu garanto, você se divertirá como nunca antes em sua vida. Mas atenção, este é um jogo que exige muita agilidade na avaliação do caráter alheio. Por isso, não é aconselhado aos diletantes.
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